House View
Atualização House View 3.º Trim: A Fed volta a colocar as subidas das taxas de juro no centro das atenções
A persistência da inflação, a alteração das projeções da Reserva Federal (Fed) e a abordagem que Kevin Warsh deverá adotar apontam para um novo ciclo de aperto da política monetária.
O nosso cenário principal em termos de resiliência da economia mundial mantém-se. Contudo, conforme salientámos na nossa House View do 3.º trimestre de 2026, publicada a 22 de junho, a inflação continua acima das metas na maioria das principais economias. Além disso, um aumento da volatilidade nos mercados pode colocar à prova o nosso cenário de “abrandamento, mas sem roturas”.
Uma vez que consideramos que o perfil de risco se alterou, revimos as nossas previsões para as taxas de juro nos EUA: se anteriormente se apontava para novos cortes das taxas, agora há a possibilidade de um novo ciclo de endurecimento da política monetária. Neste momento, prevemos que a Fed aumente a sua taxa diretora em 50 pontos de base no total durante a segunda metade do ano. Até agora, assumíamos que Kevin Warsh, novo presidente da Fed, adotaria uma abordagem mais gradual antes de iniciar um ciclo de subida das taxas de juro.
No nosso cenário de base, prevemos aumentos das taxas em setembro e dezembro. Mas não excluímos a possibilidade de a Fed antecipar parte deste ciclo de endurecimento, embora nos pareça pouco provável que as subidas ocorram já nas reuniões de julho e setembro.
Três razões que podem obrigar a Fed a endurecer a sua política monetária
Três fatores explicam esta alteração na nossa avaliação:
- A inflação continua persistente e sem sinais de abrandamento: A Iinflação tem estado acima da meta da Fed há mais de cinco anos e a inflação subjacente medida pelo índice de preços do consumo pessoal (PCE) voltou a acelerar, atingindo 3,4% em termos homólogos em maio.¹ Esta reaceleração reforça a nossa convicção, há muito defendida, de que será difícil que a inflação subjacente regresse de forma sustentada à meta sem uma deterioração mais acentuada do mercado de trabalho e da atividade económica no geral. Pelo contrário, a economia norte-americana continuou a demonstrar uma elevada capacidade de resistência perante sucessivos choques de oferta, o que reforça o risco de a inflação permanecer estruturalmente acima da meta definida.
- As perspetivas de inflação da Fed contrastam com a sua orientação de política monetária:Nas projeções económicas publicadas em junho, os membros do Comité de Operações de Mercado Aberto (FOMC) estimavam que a inflação subjacente medida pelo PCE ficaria, em média, nos 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028. Estas previsões sugerem que a inflação subjacente permanecerá acima da meta durante todo o horizonte considerado.
Em linha com esta perspetiva, o chamado dot plot do comité (o gráfico que reflete as projeções das taxas de juro dos responsáveis da Fed) evidenciou uma mudança clara para uma orientação mais restritiva. Atualmente, nove dos 19 participantes antecipam aumentos das taxas entre 25 e 75 pontos de base ao longo deste ano.
Apesar dos esforços de Kevin Warsh para relativizar a importância das indicações sobre a trajetória futura da política monetária, interpretamos esta mudança como um sinal claramente hawkish. - Os mercados interpretaram incorretamente a mudança na liderança da Fed: Nos meses que antecederam a chegada de Kevin Warsh à presidência da Fed, muitos investidores assumiram que daria prioridade a medidas destinadas a reforçar o lado da oferta da economia como forma de conter a inflação; ou seja, favoreceria o crescimento através do aumento da capacidade produtiva em vez de travar a procura através de taxas de juro mais elevadas. Além disso, esperavam que estivesse mais disposto a reduzir as taxas face às pressões da Casa Branca.
Consequentemente, os mercados interpretaram a sua nomeação como um sinal de uma política monetária mais acomodatícia, mesmo no curto prazo.
A nossa visão, contudo, era diferente. Na nossa opinião, Warsh combina uma posição rigorosa no controlo da inflação com a convicção de que a inteligência artificial e os ganhos de produtividade podem contribuir para a redução das pressões inflacionistas no longo prazo. Longe de serem visões incompatíveis, acreditamos que estas duas abordagens se complementam: poderá ser necessário apertar já a política monetária para conter a atual aceleração da inflação e restabelecer a credibilidade da Fed, antes de as melhorias estruturais da produtividade ajudarem a aliviar as pressões sobre os preços a longo prazo.
Desde a reunião de junho do FOMC, os mercados têm vindo a aproximar-se desta interpretação e aumentaram as suas expectativas de novas subidas das taxas de juro (ver Gráfico 1).
Gráfico 1 Os mercados monetários já estão a descontar a primeira subida das taxas da Fed em mais de três anos (em %)
Fonte: Allianz Global Investors Global Economics & Strategy e Bloomberg. Dados de 26 de junho de 2026.
Próximos passos da Fed: endurecer a política monetária antes de promover reformas
Nos próximos meses, a sequência das medidas será determinante. Antes de poder apoiar de forma credível uma visão mais otimista sobre o potencial de crescimento da economia e o lado da oferta, a Fed terá primeiro de reforçar a sua credibilidade no combate à inflação.
Permitir que a inflação permaneça acima da meta enquanto se confia que futuros ganhos de produtividade possam resolver o problema serviria apenas para enfraquecer ainda mais essa credibilidade. Por esta razão, acreditamos que Kevin Warsh vai “começar pelo princípio”: numa primeira fase, endurecer a política monetária para responder ao atual desvio da meta; numa segunda fase, reforçar a credibilidade da Fed no seu compromisso com a estabilidade dos preços; e, posteriormente, promover reformas institucionais mais amplas, acreditando que um crescimento mais robusto da produtividade possa ajudar a moderar as pressões inflacionistas no médio prazo.